| Estragos da Vale assustam crianças |
| Escrito por VcNaNeT |
Naiara Sales Ferreira, 13 anos, que vive em Rio Pardo, Minas Gerais, participa do encontro “Mudanças climáticas: nossa vida está em jogo!”. Em sua cidade natal, Naiara vai à escola de ônibus e, durante os 40 minutos do trajeto, observa a paisagem ao seu redor se transformar lentamente. “A Vale do Rio Doce chegou aqui, comprou uma terra e instalou um acampamento para mineração. Os buracos que ela deixa são grandes e têm tóxico. Esse tóxico escorre para a água e contamina tudo. Além disso, tem eucalipto em toda parte. Isso não existia quando eu era pequena”, contou Naiara. Ela integra o projeto da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) “Lançando Experiências” e foi escolhida para participar do evento na capital federal, ao lado de outras crianças e adolescentes tocadas por outros projetos. Diferentes culturas têm diferentes relações com a natureza, que podem ser utilitaristas, de controle ou de harmonia. Os efeitos das mudanças climáticas no planeta, contudo, são sentidos de forma semelhante e direta nos mais diversos contextos. Esta realidade fez com que a CESE reunisse de 6 a 8 de dezembro, em Brasília, jovens representantes de projetos e grupos apoiados pela organização para debater e aprender sobre mudanças climáticas. “Hoje em dia, as crianças se mostram preocupadas com o tema da ecologia porque ouvem falar dos problemas ligados ao meio ambiente na televisão. Mas este é um tema que também precisa ser trabalhado nas escolas. Já existem experiências muito positivas neste sentido em alguns grandes centros urbanos. A CESE está reunindo aqui crianças de áreas mais isoladas, lugares que sofrem os efeitos das mudanças climáticas, mas que não têm acesso a informações”, afirmou a professora. Ela constata que crianças desses contextos têm uma capacidade de observação notável acerca dos efeitos das mudanças climáticas. “Uma criança que mora no Xingu, por exemplo, tem uma percepção empírica muito aguçada que, ao lado do aprendizado que adquire num evento como este, acaba sendo um importante passo no desenvolvimento de futuras lideranças e formadores de consciência locais que irão atuar também além de seus próprios contextos”, assinalou. Ao partilhar as experiências locais em grupos divididos de acordo com o seu contexto (indígenas, quilombolas, pescadores, populações do semi-árido), as crianças e adolescentes que participam do encontro passaram a perceber um fator importante na análise das mudanças climáticas no mundo de hoje: as conseqüências das pequenas atitudes de cada um geram impactos locais e globais em curto e médio prazo. Tais conseqüências são chamadas de pegadas ecológicas, que é a medida da demanda humana sobre os ecossistemas. As crianças não só se deram conta de suas pegadas ecológicas como perceberam que também são afetadas diretamente por pegadas ecológicas de outras pessoas, povos e grandes empresas. Nos relatos dos grupos, uma voz comum foi se formando em meio à diversidade de cores, ritmos e origens: as mudanças recentes do clima se percebem em toda parte e, muitas vezes, da mesma forma através do aumento da temperatura, dos períodos de chuvas intensas seguidos de secas árduas. Em meio aos relatos das coisas belas de cada lugar, também houve espaço para partilha de lamentos e tristezas. Moradores de comunidades de pescadores no litoral do Paraná falaram do avanço do mar e da crescente dificuldade de encontrar peixes diante da constante intervenção de grandes barcos pesqueiros na região. Lembraram também o desmatamento de grandes áreas para o plantio de pinheiros. Indígenas comentaram as queimadas e como esta prática agride a natureza do local onde vivem. Quilombolas lembraram a falta da coleta de lixo em suas comunidades, a queima de árvores para a produção de carvão e a luta para não ceder à pressão da monocultura do eucalipto. “Mudanças Climáticas: Nossa Vida está em Jogo!” acontece paralelamente à conferência climática (COP 16) de Cancun, México, de onde já se ouvem rumores sobre poucos avanços concretos ao final de mais uma rodada de diálogos. Um pouco mais ao Sul, em Brasília, 22 crianças ensaiam os primeiros passos de uma nova geração que, ao que tudo indica, receberá um planeta ainda mais danificado. O desenvolvimento de consciência desses jovens pode ser um passo importante na construção de uma geração que assuma a urgência das intervenções inevitáveis e exija e trabalhe desde já por políticas públicas mais comprometidas com o meio ambiente. O encontro é uma promoção da CESE em parceria com Act for Children (Holanda, África do Sul, Índia e Quênia) e Campanha pela Educação (Brasil). A CESE é um esforço conjunto das igrejas Católica Apostólica Romana, Evangélica de Confissão Luterana, Episcopal Anglicana, Presbiteriana Unida e Presbiteriana Independente. A reportagem é de Marcelo Schneider e publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC), 07-12-2010. |